Catadores refletem a necessidade de mudanças estruturais e destacam mais acesso na logística reversa
09/04/2026
O Catador de Materiais Recicláveis e Diretor de Logística Reversa da Ancat (Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis), Anderson Nassif, participou, dia 7 de abril, do Encontro Nacional “Avanços na Gestão da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)”, promovido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
O evento marcou o lançamento de importantes instrumentos para o setor, como o Panorama Nacional das Organizações dos Catadores 2025, o Plano de Ação para o Decreto Unificado de Logística Reversa e o Plano de Revisão do Planares. Em meio às discussões, Anderson teve espaço de fala por mais de 16 minutos e levou ao centro do debate a realidade vivida pelos Catadores e Catadoras em todo o País.
Representando a nossa categoria, Anderson reconheceu os avanços no diálogo com o Governo Federal, mas refletiu sobre que os desafios estruturais ainda são profundos e urgentes.
“A Ancat quis, sim, ocupar esse espaço. Porque, se não estivéssemos aqui, estaríamos fora de uma discussão que define o nosso próprio futuro”, afirmou.
REALIDADE
Um dos pontos centrais da fala foi a distância entre a realidade das cooperativas e o que seria ideal ou razoável para a efetividade da logística reversa. Mais do que uma crítica aos números, o dado demonstra que a prioridade deve ser trazer os 60% das cooperativas que estão fora para dentro do sistema. Não é possível iniciar uma conversa consistente sobre logística reversa sem antes garantir a participação dessas organizações.
LOGÍSTICA REVERSA AINDA EXCLUI A MAIORIA DE QUEM ESTÁ NA BASE
Apesar de ser apresentada como uma solução estratégica, a logística reversa foi apontada como um modelo que, na prática, tem deixado cooperativas de fora.
“Vale o que você tem. Se a cooperativa não tem documento, já está fora. E não é por falta de vontade, é por falta de estrutura.”
Anderson também alertou que o modelo atual, baseado no cumprimento de metas, tem pressionado entidades gestoras a priorizarem volume em detrimento da inclusão social.
“As metas estão levando as cooperativas cada vez mais para o escanteio.”
DESIGUALDADE, INVISIBILIDADE E SOBREVIVÊNCIA
Durante sua fala, o dirigente trouxe relatos sobre as condições de trabalho enfrentadas pelos Catadores, evidenciando uma realidade ainda marcada pela precarização.
“Dizem que os Catadores precisam se organizar melhor. Mas vão lá no município onde não tem coleta, não tem apoio, não tem estrutura… e querem que dê certo.”
Em um dos momentos mais fortes, destacou o impacto social direto dessa ausência de políticas efetivas:
“Trabalhar com a barriga vazia já é duro. Mas o pior é saber que o seu filho também está com fome.”
Além disso, falou da lógica de mercado que ainda trata o trabalho dos Catadores como invisível ou secundário.
“Contratam tudo: banheiro, segurança, artista… e o Catador tem que trabalhar trocando por latinha.”
Anderson também pontou discursos que minimizam a participação dos Catadores na cadeia da reciclagem.
“O resíduo pós-consumo passa, sim, pela mão dos Catadores. Negar isso é uma aberração.”
Para ele, reconhecer esse protagonismo é fundamental para qualquer política pública que se proponha a ser eficaz.
PROPOSTA CONCRETA: MASSA VALORIZADA DO QUE VIER DO TRABALHO DOS CATADORES
Entre as contribuições apresentadas, Anderson defendeu uma medida prática para fortalecer as cooperativas: a valorização diferenciada da massa de materiais coletados pelos Catadores.
“Por que a massa do Catador não pode valer mais? Mesmo que por um período, para estruturar a base da cadeia.”
A proposta, segundo ele, permitiria dar condições mínimas para que cooperativas se fortaleçam e consigam competir em um cenário hoje marcado por desigualdade.
A realidade enfrentada pelas organizações também foi exemplificada de forma direta:
“No final do ano, a cooperativa precisa escolher: compra EPI ou compra comida para o Natal.”
NECESSIDADE DE MUDANÇA ESTRUTURAL
Ao final, Anderson reforçou que, embora a logística reversa seja importante, ela não é suficiente para resolver os problemas históricos da categoria.
“A logística reversa não vai salvar a nossa vida.”
Para ele, o caminho passa pela construção de políticas públicas estruturantes, com financiamento adequado, contratação de serviços e participação real dos Catadores.
“Está na hora de virar a chave e pensar numa estruturação real, que funcione na prática.”
Mesmo com o tom crítico, Anderson reconheceu o esforço do Ministério do Meio Ambiente na construção de diálogo com a nossa categoria, mas deixou claro que é preciso avançar.
“A gente reconhece o esforço, mas também precisa dizer a verdade do que acontece na base.”
Ancat