Sucessão cooperativista: preparação de lideranças garante o futuro do movimento
10/03/2026
Os dados do AnuárioCoop 2025 revelam que o cooperativismo tem uma liderança consistente e, ao mesmo tempo, o desafio de transformar essa experiência em legado, garantindo a sucessão por meio de uma renovação geracional estratégica e alinhada aos princípios do movimento.
“Mais do que promover mudanças de nomes, a sucessão cooperativista representa um compromisso com a continuidade. Preparar novas lideranças não significa substituir trajetórias consolidadas, mas assegurar que o capital intelectual, os valores e a cultura cooperativista atravessem gerações com a mesma força que construíram o presente”, afirma a presidente executiva do Sistema OCB, Tania Zanella.
Promover a sucessão nas cooperativas, com diretrizes claras e aplicáveis, de forma a garantir a perenidade e a sustentabilidade dos negócios, está entre as prioridades estratégicas do cooperativismo brasileiro. A construção desse caminho passa pelo compartilhamento de experiências bem-sucedidas em diferentes regiões do país – como em Santa Catarina, onde cooperativas vêm consolidando modelos consistentes de formação e transição de lideranças.
A catarinense Rede Cooper, maior coop de consumo da Região Sul e segunda maior do Brasil no ramo, construiu uma jornada contínua de desenvolvimento interno que conecta colaboradores, cooperados e governança, transformando a sucessão em um processo permanente.
Uma das iniciativas é o programa Líderes do Futuro, que investe no desenvolvimento interno de talentos para assumir funções de gestão e já preparou mais de 5 mil colaboradores para participar de processos seletivos voltados a cargos de supervisão.
Já o Programa de Desenvolvimento de Lideranças atua com supervisores e gerentes, aprimorando performance e preparando possíveis sucessores. O Talentos ++, por sua vez, foca em coordenadores e gerentes corporativos e regionais, mirando a formação de futuras lideranças do corpo diretivo.
No âmbito da governança, os Núcleos Feminino, Cooperativo e Agro também têm papel fundamental para as estratégias de sucessão. Compostos integralmente por cooperados, eles formam porta-vozes nas comunidades e preparam nomes para conselhos. “Hoje, 83% do Conselho Fiscal é formado por integrantes oriundos desses núcleos, resultado concreto de uma trilha de formação e renovação de lideranças”, destaca Fabiana de Souza Medeiros, diretora de Gente & Cultura da Rede Cooper.
Para o Conselho de Administração, a cooperativa está estruturando uma jornada progressiva para preparar cooperados desde a participação nos núcleos até a ascensão aos órgãos máximos de governança. “Saímos de uma mera indicação para um processo estruturado de gestão de talentos. Esses líderes que irão gerir a cooperativa no futuro têm entendimento do negócio, ajudam a consolidar o cooperativismo, são porta-vozes que reverberam isso no seu dia a dia e garantem um olhar mais estratégico de governança, permitindo uma ação inovadora e inclusiva”, afirma.
O presidente do Conselho de Administração da Rede Cooper, Hercílio Schmitt, atua há 54 anos na cooperativa e é um exemplo de liderança formada dentro da organização e que demonstra, na prática, que continuidade e renovação não são opostas, mas complementares. Além dele, a diretora de Gente & Cultura também destaca a trajetória de uma conselheira que entrou na cooperativa como colaboradora, participou do Núcleo Cooperativo e já está em seu segundo mandato no Conselho Fiscal. “Investir na sucessão é fundamental para preservar a cultura e fortalecer o cooperativismo e desenvolver uma gestão focada nos cooperados”, pondera Fabiana.
Sucessão na presidência
Na Viacredi, cooperativa catarinense com mais de 1 milhão de cooperados, a sucessão também é tratada como um movimento contínuo, estratégico e integrado aos princípios cooperativistas. Mais de 92% das lideranças da instituição desenvolveram suas trajetórias profissionais internamente.
Um deles é o presidente do Conselho de Administração, Sergio Cadore, cooperado da Viacredi desde 1973. Sua trajetória de liderança teve início em 1987 e foi construída de forma consistente ao longo das décadas, culminando com a chegada à presidência em 2025, em um processo estruturado de transição ao lado de Moacir Krambeck, que presidiu o Conselho por 25 anos. Nos últimos mandatos, houve preparação gradual para a mudança, garantindo estabilidade e preservação do legado.
“O Sr. Moacir me orientou, compartilhou experiências e abriu espaço para que eu vivenciasse as responsabilidades da função de forma progressiva. Para mim, sucessão é continuidade com identidade, respeitando trajetória, preparo e transição responsável. É receber um legado e garantir que ele siga vivo, com transparência e foco nas pessoas”, destaca Cadore.
Segundo ele, sua experiência e a de outras lideranças da Viacredi fortalecem a visão da sucessão cooperativista como um processo planejado, com impacto direto na continuidade do negócio, confiança dos cooperados e no fortalecimento da governança. Um dos caminhos adotados pela cooperativa de crédito catarinense são as trilhas de desenvolvimento técnico e comportamental, programas de mentoria e acompanhamento próximo das lideranças em preparação.
Trata-se, segundo Cadore, de um investimento que tem como retorno práticas mais responsáveis, visão estratégica e, principalmente, oferta de soluções competitivas, seguras e acessíveis. Além de permitir que a cooperativa avance com inovação, amplie sua presença, mantenha atendimento próximo e gere resultados sustentáveis, a sucessão na Viacredi é um mecanismo de perenidade. “Sucessão é continuidade, é responsabilidade e é futuro, a base que sustenta o movimento cooperativista hoje e garante que ele siga forte pelas próximas gerações, entregando valor real a cada cooperado”, destaca o presidente.
Em novembro de 2025, a criação de duas novas diretorias reforçou essa estratégia na prática: os cargos foram assumidos por lideranças com longa trajetória na coop e experiência no movimento cooperativista. “Quando a sucessão é planejada e transparente, fortalecemos a cultura, desenvolvemos novas lideranças e garantimos decisões coerentes com as necessidades da comunidade”, resume Cadore.
Entre os cooperados, a Viacredi investe na formação de lideranças do quadro social por meio de trilhas estruturadas e encontros específicos voltados a integrantes dos Comitês Cooperativos e aos delegados eleitos. Somente em 2025, os 988 líderes do quadro social – entre membros de comitês e delegados – registraram mais de 1.650 participações nas capacitações realizadas ao longo do ano, evidenciando o engajamento e a força desse processo formativo.
Estruturando a sucessão na prática
Os exemplos mostram que sucessão bem-sucedida exige estratégia, preparo e visão de longo prazo. Conheça algumas boas práticas:
- Tratar a sucessão como processo contínuo
- Integrá-la à estratégia e à governança
- Desenvolver competências técnicas e comportamentais
- Engajar o quadro social para que os cooperados sejam promotores das mudanças;
- Garantir diálogo, transparência e aprovação em assembleia
- Alinhar o plano de sucessão ao estatuto e às diretrizes institucionais
- Manter relacionamento ativo com a comunidade
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Conheça alguns materiais que o Sistema OCB disponibiliza sobre o tema:
O Manual de Boas Práticas de Governança Cooperativista do Sistema OCB visa guiar e alinhar as estruturas de governança das cooperativas. O manual ajuda cooperativas de diferentes portes e ramos a implementar modelos funcionais, refletindo as melhores práticas e evoluções do setor.
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