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Na democracia da cooperação, o trabalho organiza o capital e não o lucro

Analisa a inversão de paradigma proposta pela Democracia da Cooperação, em que o trabalho — e não o lucro — passa a ser o elemento organizador do capital. Diferente da lógica neoliberal, que coloca o capital no centro da economia, a Democracia da Cooperação reposiciona o ser humano como sujeito criador e gestor do processo produtivo. Essa transformação redefine o sentido de riqueza, deslocando o foco do acúmulo para a sustentabilidade, da competição para a solidariedade e da dependência para a autogestão.

Durante séculos, o capitalismo impôs ao mundo a ideia de que o lucro é o motor da economia. Essa lógica gerou progresso tecnológico, mas também desigualdade, exclusão e crises sociais.
Na Democracia da Cooperação, esse eixo se inverte: é o trabalho humano, coletivo e solidário, que organiza o capital. O capital deixa de ser força dominadora e passa a ser ferramenta de autossustentação — um meio para promover dignidade, autonomia e equilíbrio social.

2. O Trabalho como Energia Organizadora

O trabalho, entendido aqui não como esforço alienado, mas como expressão criativa e comunitária, torna-se o centro organizador da vida econômica.
Na lógica cooperativista, o trabalhador é também cooperador-dono — participa das decisões, planeja e compartilha os resultados.
Assim, o trabalho deixa de ser mercadoria e se transforma em ato de autogestão.
Essa reorganização baseia-se no princípio de que quem trabalha deve governar o fruto do seu trabalho, substituindo a dependência salarial pela corresponsabilidade coletiva.

3. O Lucro e suas Limitações no Modelo Neoliberal

No modelo neoliberal, o lucro é o parâmetro absoluto de eficiência. A produção é organizada para maximizar ganhos financeiros, e não para atender necessidades humanas.
Isso cria uma economia que cresce sem justiça, acumulando riquezas em poucas mãos.
O lucro, quando se torna fim, rompe o equilíbrio social e esgota os recursos naturais.
A Democracia da Cooperação propõe, portanto, um deslocamento ético: o lucro deve existir apenas como resultado do trabalho solidário, e não como seu propósito.

4. O Capital como Meio de Organização Social

O capital, na Democracia da Cooperação, é reorganizado pelo trabalho coletivo.
Ele se torna meio de circulação solidária, fluindo entre cooperativas, comunidades e fundos de sustentabilidade.
Essa visão está presente no conceito de Mercado Econômico Cooperativo (MERCOOP), onde o valor é produzido e reinvestido para fortalecer a base produtiva.
O capital, assim, perde seu caráter acumulativo e ganha função social — sustentar a vida e não explorá-la.

5. Fundamentos Éticos e Políticos

O trabalho que organiza o capital expressa uma nova ética:

O ser humano acima do mercado;

A coletividade acima da propriedade individual;

O desenvolvimento sustentável acima do lucro imediato.


Esse princípio funda uma economia moral e participativa, na qual o Estado atua como regulador ético e as cooperativas como instrumentos de democracia econômica.
A política deixa de ser mera disputa de poder e se torna gestão compartilhada da vida.

Na Democracia da Cooperação, o trabalho é a verdadeira força criadora.
Ele organiza o capital, distribui a riqueza e dá sentido à economia.
Quando o capital é conduzido pelo trabalho, o lucro se transforma em resultado natural da solidariedade — não em seu objetivo.
Essa mudança de lógica é o que pode libertar as nações da dependência e construir uma autonomia financeira com sustentabilidade humana.

“O trabalho é o coração da vida;
o capital, apenas o sangue que ele faz circular.
Quando o coração bate pela solidariedade,
a humanidade floresce em equilíbrio.”

 

Rosalvi Maria Teofilo Monteagudo

Contista, pesquisadora, professora, bibliotecária, assistente agropecuária e articulista na internet. Mestre em cooperativismo pelo CEDOPE/UNISINOS, em São Leopoldo – RS. Foi editora responsável do boletim informativo do ICA/SAA, São Paulo, no qual criou o espaço “Repensando o Cooperativismo”. Organiza cursos, conferências, estandes em feiras e já foi voluntária na Pastoral da Criança.

 

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